NOTA TÉCNICA EL NIÑO 2026
O El Niño - Oscilação Sul (ENOS) é um fenômeno associado ao sistema oceano-atmosfera da Terra e que ocorre na região do Oceano Pacífico equatorial e nas áreas próximas. Ele é caracterizado por variações anômalas na temperatura da superfície do mar (TSM) e na circulação atmosférica.
O El Niño é a componente oceânica deste fenômeno e corresponde à fase quente do ENOS, em que é observado o aquecimento anômalo das águas superficiais do Oceano Pacífico equatorial em relação à média climatológica. O Índice Oceânico Niño Relativo (Relative Oceanic Niño Index, RONI, em inglês), representa a diferença da média móvel de três meses das anomalias da TSM da região Niño 3.4 (5 °N–5 °S, 120 °O–170 °O) em relação às anomalias médias da TSM da região tropical (20 °N–20 °S).
Por outro lado, a Oscilação Sul (OS) corresponde a componente atmosférica do ENOS e está relacionado com as variações na pressão atmosférica ao nível do mar entre o Oceano Pacífico tropical oeste (observado na área de Darwin no norte da Austrália) e o Oceano Pacífico tropical leste (observado na área do Tahiti, na Polinésia Francesa). O Índice de Oscilação Sul (IOS) fornece uma indicação do estado e da intensidade do ENOS na sua componente atmosférica.
Por tudo isso, o ENOS é um dos fenômenos climáticos mais importantes da Terra devido a sua capacidade de alterar a circulação atmosférica global e, como consequência, influenciar o comportamento da temperatura do ar e da precipitação em vastas áreas da Terra por períodos que vão de vários meses a anos.
No dia 11 de junho de 2026, o Centro de Previsões Climáticas (CPC) da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA) confirmou que as condições do ENOS estão presentes no Oceano Pacífico equatorial. O fenômeno irá se intensificar de forma gradativa no período do inverno de 2026 e atingir o ápice entre a primavera e o verão 2026/2027 do Hemisfério Sul.
Os dados oceânicos apurados pela NOAA mostram que a TSM possui anomalias superiores a +0,5 °C acima da média em todo o Oceano Pacífico equatorial central e oriental desde maio de 2026 (mostrado na Figura 1), e atingindo +0,7 °C na área do Niño 3.4 no início de junho. Além disso, na Figura 2 é mostrado que a temperatura da água do mar da camada entre 0 e 200 metros de profundidade do Oceano Pacífico equatorial central e oriental estão muito acima da média climatológica.
Figura 1 - Anomalias médias da temperatura relativa da superfície do mar para a semana centrada em 3 de junho de 2026. Fonte: NOAA/CPC.
Figura 2 - Seção de profundidade-longitude das anomalias da temperatura do mar (°C) da camada superior do Oceano Pacífico equatorial (0–300 metros), centrada na pentada de 2 de junho de 2026. Fonte: NOAA/CPC.
O acoplamento entre a atmosfera e o oceano também já foi constatado. O padrão de circulação atmosférica de grande escala se apresenta compatível com o El Niño. São observadas anomalias de vento de oeste na baixa atmosfera (aproximadamente 1,5 quilômetro acima da superfície da Terra) e anomalias de vento de leste na alta atmosfera (entre 10 e 11 quilômetros acima da superfície da Terra) sobre o Oceano Pacífico equatorial central (mostrado na Figura 3). Outro indicador deste comportamento está relacionado com a geração de nuvens de tempestades e chuva, que ficou ligeiramente acima da média sobre o Oceano Pacífico equatorial central e centro-leste e próxima ou abaixo da média sobre a Indonésia (mostrado na Figura 4).
O IOS, por sua vez, ficou negativo, atingindo o valor médio de -22.3 nos últimos 30 dias, como é observado na Figura 5.
Figura 3 - Anomalias de vento (m/s) para os níveis de 850 hPa (painel superior) e 250 hPa (painel inferior). Fonte: NOAA/CPC.
Figura 4 - Anomalias de radiação de onda longa (W/m2). Fonte: NOAA/CPC.
Figura 5 - Índice de Oscilação Sul médio entre 10/05/2026 e 09/06/2026. Fonte: Bureau of Meteorology - BoM (Austrália), com tradução para o português.
Previsão da evolução do ENOS
De acordo com a Figura 6, o ENOS gradativamente deve se intensificar durante os próximos meses e nos trimestres setembro/outubro/novembro (SON) a novembro/dezembro/janeiro (NDJ) há probabilidade de mais de 80 % de atingir severidade forte a muito forte, decaindo para valores em torno de 60 % no início de 2027.
Figura 6 – Previsão probabilística trimestral da intensidade do ENOS na região Niño 3.4, para o período de MJJ/2026 a JFM/2027. Fonte: original NOAA/CPC, com tradução para o português.
IMPACTOS NO PARANÁ
Com base nos indicadores oceânicos e atmosféricos atualmente observados no Oceano Pacífico equatorial, a influência do fenômeno El Niño sobre as condições climáticas do Paraná tende a se manifestar no decorrer do inverno de 2026, persistindo ao longo da primavera, do verão 2026/2027 e, com chances palpáveis, no decorrer do primeiro semestre de 2027.
Historicamente, episódios de El Niño estão associados ao aumento da precipitação sobre o estado do Paraná, especialmente durante a primavera e o início do verão. Nesse contexto, espera-se um aumento na frequência de eventos de chuva e de acumulados pluviométricos acima da média climatológica em todas as regiões do Paraná.
Além do aumento da precipitação, eventos de El Niño de forte a muito forte intensidade costumam favorecer condições atmosféricas propícias ao desenvolvimento de sistemas convectivos de mesoescala, capazes de produzir eventos de chuva intensa em curtos intervalos de tempo, elevada incidência de descargas atmosféricas, rajadas de vento e, eventualmente, ocorrência de granizo.
Durante o inverno de 2026, a influência do fenômeno poderá contribuir para uma maior frequência de episódios de chuva em comparação à climatologia da estação. Embora massas de ar frio continuem atuando sobre o Sul do Brasil, a persistência de condições mais úmidas tende a reduzir a duração dos períodos secos normalmente observados nessa época do ano.
Na primavera, período em que os impactos do ENOS costumam ser mais expressivos sobre o Sul do Brasil, há condições propícias para precipitação acumulada acima da média histórica. A ocorrência de episódios prolongados de chuva contribui para o aumento do risco de inundações, enxurradas, alagamentos e movimentos de massa, especialmente em áreas historicamente mais suscetíveis a esses eventos.
A influência do fenômeno deverá se estender até o verão de 2026/2027, mantendo condições favoráveis à ocorrência de precipitação acima da média em parte do estado. Adicionalmente, períodos com temperaturas acima dos valores climatológicos poderão ser observados, principalmente em intervalos entre eventos de chuva, característica frequentemente associada à atuação de massas de ar mais quentes e úmidas durante episódios de El Niño.
É importante ressaltar que a intensidade e a distribuição espacial dos impactos poderão variar ao longo do evento, uma vez que as condições meteorológicas sobre o Paraná também são influenciadas por outros padrões de variabilidade meteorológica e climática atuantes em diferentes escalas temporais e espaciais.
Por fim, embora fenômenos de variabilidade climática de grande escala, como o El Niño, influenciam o padrão sazonal de precipitação e temperatura do ar no Paraná, as condições meteorológicas observadas no dia a dia são determinadas principalmente pela atuação dos sistemas sinóticos que atuam sobre a América do Sul e, com maior ênfase, no Sul do Brasil. Dessa forma, o acompanhamento contínuo das previsões de tempo e suas atualizações diárias, mais especificamente em escala de até 15 dias, aliado ao monitoramento meteorológico sistemático e ininterrupto, são ferramentas fundamentais para a identificação antecipada de eventos potencialmente severos e para o gerenciamento dos riscos associados a episódios de chuvas intensas, tempestades, vendavais, granizo e outros fenômenos adversos.